O que é a Revelação de Deus?
A Igreja, sacramento universal de salvação, obediente às indicações do Espírito Santo e na escuta da Revelação, transmite-a e sustenta a resposta de fé; “na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo aquilo em que acredita” (Dei Verbum, n. 8)¹.
A palavra “revelação” vem do latim revelatio, que significa “ato de mostrar, descobrir, destapar”, em outras palavras, “remover o véu”. Assim, Deus, em sua bondade e sabedoria, revelou-se à humanidade para permitir que, por meio de Cristo, os homens tenham acesso ao Pai e participem de sua natureza divina.
“A novidade da revelação bíblica consiste no facto de Deus Se dar a conhecer no diálogo, que deseja ter conosco”². Essa revelação aconteceu progressivamente, desde a criação até a plenitude em Cristo (cf. Jo 14,9), que, com sua vida, morte e ressurreição, manifesta plenamente a vontade salvífica de Deus. Por isso, a fé é necessária para acolher essa revelação, sendo auxiliada pela graça e pelo Espírito Santo.
A Revelação de Deus na história da salvação
O povo de Israel, escolhido por Deus, é o testemunho dessa revelação, começando com o chamado de Abraão e a aliança no Monte Sinai (cf. Gn 12,1-9; 17,15-17; 22,1-19).
A lei divina dada a Moisés, que incluiu a história sagrada (cf. Ex 3–13), a aliança (cf. Ex 14–15) e os mandamentos (cf. Ex 20,2-17; Dt 5,6-21), tornou-se essencial para o povo de Israel.
Além disso, a revelação judaica é descrita como uma aliança, um “casamento sagrado” entre Deus e Israel, tema recorrente nas Escrituras e na pregação cristã, que se mantém relevante para os cristãos como preparação para a Revelação cristã.
Sagrada Escritura, Tradição e Magistério da Igreja
A transmissão da Revelação ocorreu por meio dos Apóstolos e seus sucessores, garantindo que o Evangelho permanecesse íntegro e vivo ao longo das gerações. Da mesma forma, a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, sendo inseparáveis, constituíram-se provendo da mesma fonte divina e conduzindo ao mesmo fim: a salvação.
Nesse sentido, a Tradição Apostólica se perpetua na Igreja sob a ação do Espírito Santo, aprofundando a compreensão da fé através da pregação, da vida e do culto, e a Igreja, guiada pelo Magistério, assumiu a missão de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, garantindo sua fidelidade e continuidade. Assim, Tradição, Escritura e Magistério formam um único depósito da fé, trabalhando juntos para a edificação da Igreja e a salvação das almas.
A Sagrada Escritura foi escrita por inspiração do Espírito Santo, tendo Deus como autor e servindo-se de autores humanos para registrar fielmente a verdade necessária à salvação, e a Igreja reconheceu como santos e canônicos os livros do Antigo e Novo Testamento que hoje compõem o cânon bíblico, que ensinam sem erro a vontade divina. Assim, para interpretar a Escritura corretamente, é preciso considerar os gêneros literários, o contexto histórico e cultural dos hagiógrafos, além da unidade da fé e da Tradição da Igreja, e a interpretação da Bíblia deve ser feita sob a orientação da Igreja, que possui o mandato divino para preservar e ensinar a Palavra de Deus.
O Antigo Testamento narra a História da Salvação, na qual Deus escolhe Israel para revelar-se e preparar a vinda do Messias (cf. Gn 12,1-3; Dt 7,6-8), estabelecendo alianças com Abraão (cf. Gn 15,18) e Moisés (cf. Ex 19,5-6) e falando através dos profetas (cf. Am 3,7; Jr 1,4-10). Esses livros contêm a verdade eterna sobre Deus, a humanidade e a esperança (cf. Sl 119,89-90; Is 40,8), mesmo apresentando elementos transitórios (cf. Hb 10,1).
O Novo Testamento, por sua vez, manifesta plenamente a Palavra de Deus com a encarnação de Cristo (cf. Jo 1,14), sua vida, morte, ressurreição (cf. 1Cor 15,3-4) e envio do Espírito Santo (cf. At 2,1-4).
Nesse conjunto, os Evangelhos ocupam posição central, transmitindo fielmente a vida e ensinamentos de Jesus (cf. Lc 1,1-4; Jo 20,30-31), enquanto as cartas e outros escritos apostólicos confirmam e aprofundam a doutrina cristã (cf. 2Tm 3,16; 2Pd 1,20-21), relatando o crescimento da Igreja (cf. At 2,42-47) e a promessa de sua consumação gloriosa (cf. Ap 21,1-4).
Jesus Cristo: a plenitude da Revelação
A economia da revelação tem o seu início e a sua origem em Deus Pai. Pela sua palavra “foram feitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os seus exércitos” (Sl 33,6). É Ele que faz resplandecer “o conhecimento da glória de Deus, que se reflete na face de Cristo” (2Cor 4,6; cf. Mt 16,17; L c 9,29). No Filho, “Logos feito carne” (cf. Jo 1,14), que veio para cumprir a vontade d’Aquele que O enviou (cf. Jo 4,34), Deus, fonte da revelação, manifesta-Se como Pai e leva à perfeição a educação divina do homem, já anteriormente animada pela palavra dos profetas e pelas maravilhas realizadas na criação e na história do seu povo e de todos os homens. O apogeu da revelação de Deus Pai é oferecido pelo Filho com o dom do Paráclito (cf. Jo 14,16), Espírito do Pai e do Filho, que nos “guiará para a verdade total” (Jo 16,13). Deste modo, todas as promessas de Deus se tornam “sim” em Jesus Cristo (cf. 2Cor 1,20). Abre-se assim, para o homem, a possibilidade de percorrer o caminho que o conduz ao Pai (cf. Jo 14,6), para que no fim “Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15,28)³.
Jesus inaugura seu ministério anunciando o Reino de Deus (cf. Mc 1,14-15), especialmente aos pobres e pecadores (cf. Lc 4,18-19; Mt 9,10-13), chamando à conversão (cf. Mt 4,17) e revelando o amor e a misericórdia divina (cf. Jo 3,16; Lc 15,1-7).
Sua vida é a plenitude da Revelação (cf. Hb 1,1-2) e a manifestação do novo mandamento do amor (cf. Jo 13,34-35). Após sua morte e ressurreição (cf. 1Cor 15,3-4), Ele envia o Espírito Santo (cf. At 2,1-4) e confia aos discípulos a missão de continuar sua obra (cf. Mt 28,19-20), proclamando, ensinando e testemunhando (cf. At 1,8).
A evangelização é, portanto, um processo dinâmico que integra testemunho, palavra, sacramentos e transformação social (cf. At 2,42-47), conduzido pelo Espírito Santo (cf. Jo 14,26) e vivido na Igreja de forma complementar e enriquecedora (cf. 1Cor 12,4-7).
A fé como resposta à Revelação de Deus
A fé em Jesus Cristo é a resposta ao chamado divino que inquieta o coração humano, levando cada pessoa a compreender-se plenamente em Cristo. A fé cristã implica uma adesão livre e confiante a Jesus, baseada na aceitação do amor de Deus e na obediência à verdade revelada, e esse ato de fé transforma profundamente a existência daquele que crê, impactando todas as áreas da vida e conduzindo-o a uma comunhão filial com Deus.
Além de ser um dom sobrenatural, a fé não é irracional, pois razão e fé se complementam. Ela é também comunitária, vivida na Igreja, onde o “eu creio” pessoal se une ao “nós cremos” eclesial, sustentando a missão evangelizadora e o testemunho cristão no mundo.
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2)⁴.
A Igreja fundamenta sua missão no desejo divino de revelar seu amor e oferecer salvação a toda a humanidade (cf. 1Tm 2,4; cf. Jo 3,16). Desde a criação, Deus nunca cessou de manifestar seu plano de redenção (cf. Gn 3,15; cf. Ef 1,9-10), chamando cada pessoa à comunhão com Ele (cf. Is 55,1-3; cf. Jo 17,21), uma revelação que atinge sua plenitude em Cristo (cf. Hb 1,1-2), que, ao encarnar-se, concede aos homens acesso ao Pai e participação na vida divina (cf. Jo 1,14; cf. Ef 2,18; cf. 2Pd 1,4).
Jesus não apenas revela os mistérios de Deus (cf. Mt 11,27), mas concretiza a salvação por meio de sua vida, paixão, morte e ressurreição (cf. 1Cor 15,3-4; cf. Rm 4,25), confirmando que Deus está conosco para nos libertar do pecado e da morte (cf. Mt 1,23; cf. Rm 6,9-10). O anúncio cristão proclama essa novidade transformadora: em Cristo, a humanidade encontra uma vida nova, marcada pela filiação divina, redenção e herança eterna (cf. 2Cor 5,17; cf. Gl 4,4-7; cf. Ef 1,13-14).
A transmissão da Revelação na fé da Igreja é uma missão universal, com Deus querendo que todos se salvem e alcancem a verdade, e a Igreja, fundada por Cristo sobre os Apóstolos, cumpre essa missão com a ajuda do Espírito Santo, que a conduz na evangelização e na compreensão do Evangelho. A Revelação de Deus é transmitida por meio da Tradição e da Sagrada Escritura, ambas originadas de Cristo, e o Magistério da Igreja interpreta e preserva essa Revelação para as gerações futuras. A missão evangelizadora da Igreja é essencial, e seu objetivo é tornar Cristo presente e levar a humanidade à plena realização de sua vida, alcançando a salvação e a divinização através da participação na natureza divina de Deus.
Como transmitir a Revelação de Deus na catequese?
Trabalhar o conceito de Revelação na catequese envolve não apenas o ensino teórico, mas também uma experiência vivencial que ajude os catequizandos a compreenderem que Deus se revela de maneira contínua em suas vidas, através das Escrituras, da Igreja e do próprio Cristo. Por isso, trago algumas pistas, alguns caminhos, de forma bem prática, para abordar a Revelação e sua transmissão na Catequese:
A Revelação deve ser ensinada de forma progressiva e aprofundada, conforme o amadurecimento dos catequizandos, anunciando que Deus se fez próximo em Jesus Cristo, o Salvador, e manifestou plenamente Seu amor e plano de salvação. A catequese começa proclamando Jesus como o rosto visível do Pai e o centro da Revelação, convidando os catequizandos a acolherem o Evangelho como Palavra viva que transforma. Progressivamente, mostra-se que Deus já se revela desde a criação, na história de Israel e nas Escrituras, preparando-os para o encontro pessoal com Cristo. À medida que crescem na fé, aprofunda-se a compreensão de como Deus continua Se revelando hoje na Igreja, nos Sacramentos, na Palavra e na vida cristã, conduzindo-os a uma resposta de fé e conversão.
Lembre-se de que a catequese deve ser acessível a todas as idades, com adaptações para os mais novos ou os mais maduros na fé. Crianças podem aprender sobre a Revelação de Deus de uma forma mais lúdica e simples, enquanto os adultos e jovens podem ser levados a uma reflexão mais profunda. Com essas abordagens, os catequizandos poderão ser conduzidos a não só entenderem o que é a Revelação, mas a vivê-la em sua vida diária, tornando-se discípulos e missionários do Deus que se revela a todos nós.
¹ Diretório da Catequese, n. 28.
² BENTO XVI. Exortação Apostólica Verbum Domini, n. 6.
³ BENTO XVI. Exortação Apostólica Verbum Domini, n. 20.
⁴ SÃO JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Fides et Ratio. Preâmbulo.
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Encontro Pessoal com Jesus Cristo
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Por Douglas Palmeira / Redação – Catequistas Brasil

